domingo, 17 de outubro de 2010

Um sonho de Liberdade (?!)

Acabei de me dar conta que não somos livres!

Não somos, desculpa, não somos e pronto.

Nosso conceito de liberdade esbarra na ilusão daquilo que conhecemos como LIVRE.

Nossa liberdade é exatamente a de um cachorro que fica solto no quintal e ignora a existência dos muros. Condições sociais, escolhas profissionais, aparência física, quadro de saúde, entre outras coisas, apenas definem o tamanho desse quintal.

Então o que é ser livre de verdade? O que é esta busca humana de ser livre?

Você é livre porque pode decidir onde sair pra dançar, que horas volta pra casa e a quantidade de bebida que ingere? É livre porque não cumpre pena em uma penitenciária?

Ou você é livre porque pode ter momentos de “Comer, Rezar e Amar”, onde na sua próxima crise você pode sacar seu cartão de crédito e passar meses comendo macarrão na Itália, fazendo Ohm na Índia e nadando pelado em Bali?

Estamos constantemente subindo “montanhas” e nos proclamando livres, sem perceber que as montanhas que buscamos escalar são as de Dinheiro, Status, Sexismo e Poder.

Você é livre para assistir ao Festival de Rock em Glastonbury, em Pilton, Inglaterra. É o maior festival de música do mundo. Mas está preso aos prazos no seu trabalho. Está preso aos custos de tal viagem. Está preso ao fato de só poder pagar por você, o que deixaria sua noiva (o) muito chateada(o) por parecer querer ir mais a este festival idiota do que ficar com ela(e). Então há quem também esteja preso aos relacionamentos. Está preso a liberação de um visto. Como você pode ser livre, dependendo de tantas e tantas coisas?

Então que liberdade é essa que buscamos? Isso não é ser livre. Nunca será. Sempre existirão condições. Sempre existirão limites. Os muitos pobres não podem ir a todo lugar porque são pobres. Os muito ricos também não podem, porque são muito ricos. Os diplomados e os ignorantes. Os sedutores e os retraídos. Nunca poderemos ser livres em sua totalidade. E a busca por essa liberdade só leva à frustração e é vazia. E os gananciosos descobriram formas de iludir a todos com “ofertas” de liberdade conquistável a preços promocionais que à medida que dão gosto na sua língua ou te fazem gritar “wooouuuhhh”, entorpecem a voz de sua alma, sua inteligência e sua personalidade.


Guy Debord, Spinoza, Kant, Sartre, Schopenhauer, Leibniz, Descartes, Pecotche, Bakunin e muitos outros já se depararam com o que poderia ser a Liberdade. Nenhum deles, no entanto, encontrou um quintal sem muros. Nossa alma é presa ao nosso corpo. Estamos presos à moral, à ética, aos padrões sociais, à sociedade, aos dogmas religiosos... Sempre presos a alguma coisa... Talvez a liberdade esteja em nunca se aproximar de seus limites. Desejar sempre menos do que se pode ter, para nunca sentir a corrente presa aos seus pés esticar. Nesse caso, estará preso ao desejo e será limitado dentro de seus limites. Você conhece alguém que faz muito menos do que pode só para não ter que lidar com seus “muros”? Um limitado dentro de seus limites... Eu convivo com uma pessoa assim diariamente, sempre a vejo quando escovo os dentes.

Hoje percebi que ser LIVRE não é algo que nos expande. É algo que nos puxa, como um buraco negro, consumindo a si mesmo. Liberdade é justamente conhecer os muros de seu quintal, sim. Saber que eles existem e não viver DOPADO, iludindo a si mesmo para não sofrer com dura realidade de seus limitadores. E conhecendo o seu quintal e percebendo-se preso, como Rubin Carter na prisão, buscar transcender aquelas paredes sem precisar de nenhuma oferta mundana e convencional com sabor “liberdade” que lhe possa ser oferecido. Quando esse encontro entre si mesmo e sua alma, lá dentro do buraco negro, acontecer, você irá descobrir um universo em um grão de arroz. Galáxias transponíveis e nenhuma fronteira. Que você não precisa do mundo exterior para ser livre. Só precisa dele para conhecer, experimentar e aprender. O mundo é que precisa de SUA liberdade para continuar a existir. Que tudo que você precisa vai estar sempre ao alcance de suas escolhas, seu esforço, merecimento e crença. Quando isso acontecer, esse buraco negro irá explodir como bomba atômica, devastadora para muros, grades, falta de dinheiro, de auto-estima, fama, status social, de vontade, de ausência de sonho, de desânimo, de desamor, de relacionamentos possessivos e medo. E esse espírito estará tão solto no universo e será tão consciente de sua ligação com tudo, que seu corpo será apenas o abrigo e poderá perceber uma ínfima parcela desta sensação e então conhecerá o que é, de fato, ser livre.

3 comentários:

[flor] disse...

"tudo que você precisa vai estar sempre ao alcance de suas escolhas, seu esforço, merecimento e crença". refleti sobre o seu texto, mas principalmente nessa frase, que resume tudo o que foi dito.
a minha visão de liberdade é bem parecida com a sua. eu não me sinto prisioneira de nada além de mim mesma e das barreiras que crio diante de cada medo, de cada passo no escuro, de cada escolha que devo fazer. as grades que nos prendem são as que nós mesmos colocamos diante dos caminhos que trilhamos. não é nada fácil ultrapassar muros, barreiras, fronteiras. não é fácil abrir mão do conforto de ficar ali, "protegido" por nossa falsa liberdade. buscar, alcançar, tentar, sonhar... essa é a liberdade objetiva que procuramos na vida.
eu hoje me sinto presa a muitas coisas, mas nunca me senti tão livre... sou presa ao amor que tenho pela minha filha, pelo meu marido, pelas pessoas que me são caras, mas sou livre... livre para sentir isso tudo sem vergonha, sem receio.
sou confusa né?
=)

saudades!
bjos enormes!

Aloina Fragelli disse...

Felipe, muito triste a imagem do cãozinho... ele, com certeza, tem a liberdade que almejamos. Nós o colocamos no famigerado quintal porque vivemos dentro do nosso próprio e não temos a sabedoria necessária para nos libertar dos paradigmas da vida humana, e são muitos hein?? A humanidade teria que recomeçar do zero, idade das cavernas (sem Adão e Eva, claro), quem sabe assim poderíamos esboçar a tão sonhada liberdade, baseada na autonomia e independência para ir e vir, sem amarras, donos, submissão, dogmas, usos e costumes. É assim que entendo e vejo a liberdade que tanto almejamos neste mundo moderno e cheio de conflitos e desigualdades. Como buscar liberdade em meio a tantas diferenças???

Aloina Fragelli disse...

Desculpe-me, sai sem deixar um monte de beijossssssssssssssssssss e saudades.