quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Espetáculo da tragédia

Curiosa a atração humana pelo mal.
É quase que generalizada à adoração pela desgraça.
Todo mundo se interessa por qualquer coisa onde impere a maldade, o ruim ou que mostre nossa insignificância perante as forças da natureza.
A exclamação geral é : "Meu Deus, que horror!!!", mas sem desgrudar os olhos da TV.
Tudo o que é desgraça é um prato cheio para a mídia no geral.
Crimes, seqüestros, assassinatos, acidentes, dramas familiares, atentados, problemas econômicos. Quanto mais enrolada a história, melhor. Quanto mais violento o final, mais ibope.
A mídia ultrapassa os limites do profissionalismo da cobertura do acontecimento para invadir intimidades desnecessárias, desrespeitar e explorar a dor de quem esta vivendo a situação e expor os envolvidos e todas as pessoas próximas a entrevistas e programas especiais.
E se fazem tudo isso, é porque o público pede, aceita, engole e se delicia com o circo armado.
Programas se especializaram em levar uma pessoa, que tenha uma vida horrível, problemática, para se expor em uma entrevista, e fazer o auditório, e você em casa, chorar. Claro que ficamos felizes com a ajuda que essa pessoa recebe depois de abrir sua intimidade em rede nacional, mas, por que não conseguimos deixar de ver isso? Por que a necessidade de expor a pessoa antes de ajudá-la?
Não digo para que sejamos imparciais diante de demonstrações da maldade humana. Nem que sejamos frios, insensíveis às tragédias ao nosso redor.
Mas usa-se a tragédia como ponto de desvio de atenção. Até mesmo a crise econômica acaba sendo transmitida como o fim do mundo, à volta a Era das Cavernas. Por quantas crises o Brasil já não passou? E se não foi você que passou por ela, foram seus pais, e nem por isso você não esta agora na internet lendo um texto no conforto da sua casa, ou no seu trabalho e com todos seus mimos. Ajustes por causa dela sim, não desespero como estão alardeando.
Mas, tirando o que é noticiado a exaustão, foque agora nas pequenas desgraças do cotidiano, aquelas que acontecem no caminho da escola ou do trabalho.
Quem não para no transito para olhar um acidente, um atropelamento, por mais que a policia esteja apitando e mandando seguir para evitar o congestionamento ou pior, outro acidente?
Quem, quando vai falar sobre alguém com outra pessoa, não começa falando dos problemas ao invés de contar as vitórias primeiro?
De todas as noticias que você vê ou lê por ai, quantas falam de alguma coisa boa que aconteceu? E você, comenta sobre essa única coisa boa? Aposto que fala da última desgraça.
Todo mundo faz uma coisa assim. É o lado cruel do ser humano, o lado lúgubre.
As pessoas gostam de ver a desgraça alheia, seus problemas, suas dificuldades, porque no íntimo, como uma vergonha, um segredo, elas se sentem vivas com isso.
O caos na vida de alguém acaba gerando o prazer do alivio. É como se os outros estivessem sendo castigados e com isso, sua vida não é tão ruim. Você se sente melhor, superior.
"Antes eles do que eu, ou minha família, meus amigos..."
"Tenho pena, mas ainda bem que essa inundação não foi no meu bairro"
"Que acidente horrível, ainda bem que eu não estava aqui na hora, podia ter me envolvido".
"Nessa crise, demitiram 200 funcionários na minha empresa, ainda bem que eu fiquei!"
Egoísmo, isso sim.

Do que adianta ficar olhando a destruição, se comover e não fazer nada? Seu "sentimento solidário com a dor" não muda nada.
Viu um acidente que não chegou socorro? Pare o carro e ligue para a emergência!
Está comovido com o desastre em Santa Catarina? Ache um meio de ajudar.
Está preocupado com a crise? Dizem que é na crise onde surgem as melhores oportunidades. Basta levantar a cabeça do problema.
Achou estúpido e brutal o que aconteceu com a menina Eloá? Deixe de assistir ao circo armado da mídia, não de ibope.
Proteste contra o que acontece, e quem sabe assim, voltamos a ter respeito pelo nosso igual e continue se chocando sim, com a maldade e com os desastres, mas respeitando a dor e fazendo o que estiver ao seu alcance para mudar a situação ao invés de continuar a "solidariedade do sofá". E se você não tem o que fazer, não atrapalhe quem pode, ou você acha que, com todas as emissoras cobrindo um seqüestro, por exemplo, ajudam o trabalho da polícia?
Informação e ação para mudar o quadro é diferente de falar, estender o assunto e buscar detalhes sórdidos sobre os acontecimentos.

16 comentários:

Lidianne Andrade disse...

lindo seu blog
belo texto
parabéns!

Leo Pinheiro disse...

POr isso que as pessoas dizem que a ignorância é um dom...

Mas, discordo. A informação noticiada por profissionais éticos é a marca da evolução de um povo.

Senão, o Daniel Dantas nunca seria preso e por aí vai.

Acho que a imprensa está fazendo muito por SC tb!

HoneyBee disse...

Tenho lido muitos posts sobre esse assunto. Toda tragédia suscita esses desejos egoístas em alguns e altruístas em outros. =)

Sempre torcemos para que os altruístas superem os demais.

Jovens Tolos... disse...

Quer saber o que eu acho disso tudo?

FALSO MORALISMO, a mesma coisa foi com aquele caso de Eloá, gente botando LUTO no orkut sem mesmo nunca ter visto a menina.

Mr. e Mrs. Ironia disse...

A banalização da tragédia, a comercialização da dor...

Triste, mas realidade.

Todo ralo da num Esgoto disse...

pois eh...td se comercializa hj...alegria,tristesa...e as dores...alheias principalmente!
bom texto!!

www.todoralodanumesgoto.blogspot.com

Sagat disse...

Pow, PERFEITO.
Acho que não preciso nem falar mais nada, se todos pensassem assim a respeito de certas coisas como a TV, quem sabe teríamos um povo menos manipulado!
Parabéns mesmo pelo blog, depois passe no meu, temos uma visão muito semelhante...

Favoritos!
Abraços.

Kacau disse...

é parece que a vida se tornou um comercial ....


http://messnatural.blogspot.com/

Thiago Borges disse...

Infelizmente é isso... Tragédia dá audiência...

As pessoas gostam de más notícias...

É realmente triste...

b disse...

Sabe o que acontece também?
Não acreditamos de maneira alguma, que o "bem" possa ter algum peso.
Acreditamos, nos identificamos mais com o "mal".
Que não é em maior quantidade do que o "bem" do dia a dia.
Ir à padaria da esquina é muito divertido, mas isso não conta.
Conta, é que as pessoas se alimentam do que mais têm medo.
Conta, é que as pessoas não se crêem merecedoras do "bem" _ ou vivem como se ele não existisse e existe sim.
Só não vende.
A mídia é mais trágica, maldosa, nefasta do que qualquer acontecimento do mal.
A mídia alimenta a idéia de que as pessoas, a comunidade, a nação, a humanidade, não dão certo.
Fica a pergunta: Qual a intenção?

a. disse...

Ainda me lembro quando me diziam ao surgir esse aparelhinho infernal(na época era o máximo) hoje com novas tecnologias avançadas(?)não adianta Lima Duarte deixar de comer queijo, porque aparece)mas com a mesmíssima programação que continua RUIM...
Já se falava do lixo que vinha através dela, ou que todos riam da mesma piada sem se verem ... pois os espectadores estavam isolados em suas casas.Censura ??? Classificação etária ???
Pouco funciona. Para o Mal parece que é mais fácil se deliciar com a desgraça alheia, então noto que é mais comodo pisar nos outros para dizer que subi na vida...
Esse é o novo conceito desenvolvido pelo 4º poder ...
Valores Pessoais e Culturais ??? SOS...

Luciano disse...

Vão os anéis, ficam os dedos.

Não acho que seja algum veículo de comunicação ou inovação tecnológica, mas sim pura e simplesmente o desejo de que tudo dê errado para que ninguém precise assumir as responsabilidades genéricas da vida.

Pois é mais fácil deixar de tomar uma atitude contra a violência, quando se faz de 'vítima antecipada" dela.

Mas no fundo, isso cheira a enxofre e frauda molhada, infantilidade total ou desejo de morte.

Dário Souza disse...

Alem dos textos serem incriveis muito legal a decoração de natal.Parabens pelo blog

Miriã Soares disse...

Verdade, alem dos textos serem bons achei encantadora a decoração natalina!!!

greatdj disse...

Ver a desgraça alheia nos faz sentir superior.
É por isso que vemos tanta porcaria, porque se vermos pessoas melhores que a gente, teremos o orgulho ferido.

Wander Veroni disse...

Olá!

O que me deixa triste como jornalista é alguns veículos tranformarem a notícia em show, no espetáculo da tragédia.

Abraço,

=]

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